CRIME BRUTAL ASSUSTA RESIDENCIAL.

O assassino pode ser alguém que conhecia muito bem a vítima.

 Um assassinato brutal aconteceu na tarde de ontem no residencial Culpi’D II e assustou os moradores da localidade. Há alguns dias um cheiro forte e doce estava incomodado algumas pessoas que trafegavam pela Rua Magict e por isso acionaram a PPCC (Polícia Pouco Científica do Coração). Quando a PPCC chegou, a cena era realmente deplorável, o corpo de um cupido foi encontrado já em estado de outono.

Seu corpo estava com diversas lesões, marcas de queimadura e escoriações, havia penas para todos os lados e um pano branco estava amarrado em seu pescoço. O arco e as flechas foram roubados, restando algumas quebradas. Os cachos dos cabelos haviam sido cortados e os poucos que restavam estavam alisados. Porém o mais intrigante foi uma carta encontrada ao lado do corpo da vítima. Segue-se logo abaixo editada, devido ao conteúdo ofensivo.

               “Quando acharem esse cupido morto não fale “Tadinho”, “Que maldade”, porque ele mereceu cada ponta-pé que levou, na verdade a coitada sou eu que tinha por cupido esse ser_ meio anjo, meio gente_ como arqueiro do amor. Eu poderia ter aceitado esses trinta e poucos anos de desleixo, porre, fases, erros, drogas, problemas com mira, 5,3° de miopia (…) e outros detalhes, mas o que aconteceu na última quarta-feira foi o cúmulo do inaceitável. Se ele tivesse boa reputação eu juro que teria ficado na minha, mas depois de todos esses anos matá-lo deve ser considerado legítima defesa.

                Acho que quando nasci faltava cupido e me deram esse sem que ele tivesse concluído o curso. O fato é que começou de pequena com um colega da alfabetização, eu amava-o, mas para ele não passava da gordinha que gostava de pizza. Perdoei meu cupido, afinal acertar de primeira é complicado. Se eu soubesse que essa era a primeira de uma série de erros teria pedido reembolso, devolução ou qualquer outra solução. Saí da alfabetização e de novo me apaixonei. Samuel, lindo e loiro Samuel Macedo, que foi minha paixão até por volta da quinta série. Por ele corria pelo pátio brincando de coisas que não sabia, jogando com os meninos, me matando para ser vista, me descabelando e suando, mas ele sempre estava sorrindo para mim então eu corria mais e mais. Tive algumas outras paixões nesse tempo (…) mas sempre voltava para Samuel, até que descobri que ele não ria para mim, ele zombava da minha cara, eu era (nas palavras dele) “uma patinha correndo, a coisa mais engraçada e esquisita” que ele já tinha visto.

                Não sofri tanto por Samuel porque me descobri apaixonada por meu pediatra. Sim, meu pediatra. Foi nessa época que comecei a desconfiar que meu cupido tivesse problemas sérios, mas foram necessárias mais três paixões _Elder, professor de Educação Física; Carlos, aluno do 2º ano; Pedro, caixa do supermercado_ para descobrir o real problema. Visão. Tentamos corrigir a miopia com óculos, arcos e flechar com mira automática e a laser. Nisso eu já estava com quase 15 anos no famoso primeiro ano do ensino médio, quando os meninos do 3º são os bam-bam-bam do colégio. Comecei a gostar do Júnior, que se apaixonou por minha amiga, que se apaixonou por ele, e o resto virou amor. Minha amiga o convenceu a apresentar-me um de seus amigos, e foi incrível o jeito como Fernando começou a mexer comigo. Nós começamos a conversar, sair e eu comecei a namorar com ele, mas ele não namorou comigo. Sofri.

                Quando estava no 3º ano me apaixonei por um rapaz do primeiro ano. O problema era mais grave do que pensava, investiguei e descobri que esse meu cupido tinha problemas com bebidas alcoólicas. Um anjo viciado?! Eu não merecia. Conforme os anos passavam tudo foi piorando, traições, rapazes comprometidos, Rafael o pai de uma amiga,(…) Rodolfo com vinte e três anos e três filhas pequenas sem mãe.  Outro Samuel apareceu, mas me apaixonei por ele muito tarde, ele já não sentia mais nada por mim (aconteceu o mesmo também com Bruno e Márcio). Porém meu cupido se justificou dizendo que tinha problemas com insônia, por isso acordava tarde e isso o impedia de acertar flechadas na hora certa.  Tentamos despertador, chás calmantes para dormir e pareceu que enfim ele tinha criado juízo.  Comecei a namorar Marcelo, quatro anos e meio de namoro e vinte e sete chifres. Sim, vinte e sete chifres. Sofri mais do eu acredita que seria possível, fui para balada, (…) me acabei na pista, peguei geral e me apaixonei pelo barman; Antônio, falido, com duas ex-namoradas loucas, grosso, imigrante, mas fiel. Foi deportado e nunca mais me ligou, e advinha?! Eu sofri.

                Tentei José Elias Neto, um caminhoneiro. Foi quando meu cupido começou a se drogar e envolver-se com causas ideológicas. Depois tentei com José Elias Filho e por um descuido amanheci com o Srº José Elias, que me mandava “cascar fora” quando sua esposa chegava da Argentina. Ah, quantas loucuras não fiz com o Srº José Elias quando Beth viajava para Argentina (…).

                Por último Paulo, bonito demais, romântico e bom de cama, deveria ter desconfiado_ antes de me apaixonar, claro. Encontrei, na última quarta-feira, Paulo com Saulo, aos beijos. Beijos, mãos e muito desejo. E mais, contaram-me que Saulo era primo de Samuel, o lindo e loiro da minha infância. Fui à casa do meu cupido tirar satisfações e no meio de remédios de taxa preta, mapas, papelotes e comprimidos encontrei uma lista cheia de setas que me chamou a atenção. Saulo era primo de Samuel que era filho da segunda esposa do Srº José Elias, que por sua vez saia para beber com Rafael na boate que o professor Carlos abriu depois que largou o magistério. E mais, Bruno e Elder tocavam lá toda quinta na época da faculdade, e gastava uma parte do dinheiro jogando Poker com Júnior e Fernando. Esses, que nunca deixaram de ser amigos, jogavam futebol de bairro contra o time de José Elias Filho. O time desse último contava com Rodolfo sempre que ele conseguia deixar suas filhas com a mulher de Pedro, que era irmã da mãe fugida das meninas (…). A mãe das meninas estava em outro país tendo um caso com Antônio, que antes de ser deportado passou um cheque sem fundos para a empresa de Marcelo. E para acabar de vez, o tal do Samuel (o 2º) prestava serviços de contador para sogra de Márcio, que às vezes recorria a José Elias Neto para aliviar a carência da viuvez.

                Enquanto eu acreditava em encontrar um grande amor meu cupido irresponsável (…), gastava tempo com qualquer outra coisa, menos arranjar-me um amor. Ele era tão preguiçoso que nem se deu ao trabalho que explorar o universo, o mundo, a cidade, ou pelo menos o bairro, pelo contrário. Furiosa, fui atrás dele e o encontrei discutindo causas socialistas com uma cúpida assanhadinha.  Eu aqui solteira enquanto ele economizava tempo para estudar sobre política e pegar todas as cúpidas. Foi o fim. Levei-o para o jardim, fiz “bem-me-quer, mal-me-quer” até que suas penas acabassem, surrei-o com algumas flechas, soco inglês (…). Cortei seus preciosos cachos, obriguei-o a alisar a franja e por fim o fiz recitar Camões e Vinícius enquanto apertava a tanguinha branca no pescoço dele, (…) mas o fôlego dele acabou antes de completarmos Camões. Depois de tudo que contei fica claro que foi em legitima defesa, por isso já inocento minha consciência de qualquer acusação. As flechas que sobraram e o arco levo comigo, irei eu mesma caçar um grande amor.”

Ainda não temos descrição da agressora, pois a cúpida que foi vista por último com a vítima está internada em estado de choque.

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