Sobre o verbo desejar.

               Era uma quinta-feira chata em que ela tinha aula de inglês e ele queria que ela fosse embora com ele. O clima estava diferente, estavam mais cuidadosos um com o outro, acabavam de sair de uma briga por ciúmes. Eram apenas amigos, mas não qualquer tipo de amigos, amigos com química_ e isso é o tipo de coisa que se prova pouquíssimas vezes na vida e se entende menos ainda. Era aquele tipo de química que qualquer palavra parece demais para explicar. Eles conheciam-se a pouco mais de um ano, mas tinham uma certeza: algo neles sempre esteve junto, eles tinham que ter se conhecido. Ele dizia que era tão estranho que tinha lembranças dos dois brincando juntos quando pequenos. Entendiam-se e davam-se bem, tão bem que precisavam brigar.

               Mas continuando, naquela quinta ele pediu que ela não fosse para o inglês, ela disse que já tinha faltas demais, precisava ir, ao menos que… só para brincar com o impossível disse ela:

_Se chover eu vou embora com você.

               Fazia sol e não havia nuvens no céu, a não ser que ela não tenha percebido, e chover era pouco provável. Houve alguns minutos de silêncio enquanto caminhavam e ela olhou assustada para o braço, um pingo d’agua havia caído nele, depois outro, outro e tiveram que correr para o ponto de ônibus. Sim, era chuva. Ela não precisou perguntar, apenas o olhou com olhos assustadamente felizes. Ele disse:

_Quando a gente quer algo, tem que desejar com muita vontade.

               Sim essa menina era eu, e ele foi um amigo que provou, da melhor forma, que para se conseguir algo basta desejar com muita vontade.

               Coloco esse fato só para exemplificar o que vou falar neste post. Aproveito o gancho dos amores platônicos do Everton para falar que para mim o maior problema dos platonistas é com o verbo desejar. O platonista deseja errado. Digo isso porque sou de certa forma platônica, não nego que dedico a uns algum tempo da minha imaginação. São divertidos, melancólicos, perfeitos e não são meus. E ai que mora o segredo para o platônico, o objeto de desejo (leia-se amores) não podem estar ao alcance das mãos, e por causa disso ou exatamente por isso é que os platonistas desejam tanto.

               Meu caso é mais sério, nunca tive um único objeto em foco, perco-me no meio de “E SE” infinitos. E tenho plena consciência de que preciso ter-los fora do meu alcance, porque quando a distância entre a realidade e o “se” diminuir o prazo de validade começará a correr e desejo passa. Simples, frustrante e estranho. Isso me preocupa, muito.

               Com isso, tenho certeza que tenho problemas como verbo desejar, desejo nas horas erradas e de forma pouco intensa, como uma criança que uma hora quer chocolate e quando vê um sorvete já muda de idéia. Meu desejo nunca nublou o céu por ninguém, nunca fechou semáforos ou cancelou viagens. Meu desejo nunca me fez optar pelas opções que faziam minhas mãos gelarem ou ligar para alguém que queria muito sem me importar com as conseqüências. Parece-me que venho com um defeito de fábrica, e meu sistema não lê direito esse código tão simples que é DESEJAR. Então, aos amores do Everton.

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