Quando o vento pára de soprar – Parte 1

          Eram quase seis horas da tarde, Elisabeth ainda podia ver alguns fechos de luz entrando pelas fendas do vagão. Seu corpo estava cansado e sem forças, mas suas mãos estavam fechadas em punhos embaixo do seu corpo, seus dentes estavam trincados a ponto de começar a machucar os lábios, embora o que sentisse não fosse raiva seu corpo contraia-se a cada distância que o trem percorria. Seu vestido estava um pouco sujo, respingados de sangue e suas pernas cortadas.

          Há quatro dias, encontraríamos seus olhos menos assustados, apesar de tristes, suas roupas muito bem passadas e engomadas, e seu corpo branco em um espartilho marcando sua cintura que, coberta por um imenso vestido rodado acentuava sua nobreza natural. Há quatro dias Elisabeth estaria tentando gerenciar tudo, resolver os problemas odiando-se por ter nascido mulher, “Quando nós mulheres poderemos usar calças, quando poderemos cuidar do que nos pertence sem depender de homens?!”, pensava Elisabeth toda vez que tinha que lhe dar com as apostas perdidas do seu pai.

          O trem balançava despertando Elisabeth que tentava permanecer lúcida, sabia que havia algo de diferente, mas não sabia ao certo se estavam dando-lhe ervas para dopá-la na comida ou na bebida, mas sentia seu corpo estanho. Se não tivesse tentando fugir, cortando suas pernas enquanto corria em trajes de banho pela mata ao lado do rio, provavelmente não estaria dopada. E se não estivesse, teria tentado fugir pela janela, subindo em seus baús de roupa que estavam no vagão, então ira morrer ao cair do trem ou estaria dopada como agora.

          Era filha única, sua mãe tinha morrido em seu parto e depois dessa grande perca seu pai enfiou-se em bebedeiras intermináveis e jogos de apostas altíssimas. Mas Elisabeth cuidava dele com toda calma e amor, para ela, ele era uma criança rebelde após perder algo que muito amou. O que a chateava era ter que procurar seu primo Jhon para resolver todos os assuntos financeiros, ele sempre demonstrava certa tensão em vê-la, como se não gostasse da presença de Elisabeth. Seu nome era Jhon Marquéz, e iria se casar com a filha da duquesa Rose, estavam prometidos desde criança e era uma casamento formidável, do qual Jhon nunca havia reclamado. Ele um bom homem, cortez e muito atencioso porém andava sem paciência com os problemas do pai de Elisabeth, na última ocasião na qual Elisabeth o procurou aos prantos ele pediu para que nunca mais o incomodasse.

          Enquanto ouvia o barulho do trem nos trilhos, Elisabeth pensava no pai e mesmo assim não conseguia odiá-lo. Sentia o cheiro do feno molhado no seu nariz, e a uma saudade imensa de casa, do pai, da sua vida que nunca mais voltaria a ser o que era, vinha aperta-lhe o coração. Na próxima estação chegaria a fazenda de Anthony Paul, e seu medo aumentava ainda mais. Anthony Paul era um fazendeiro muito famoso na região por sua dureza e retidão de caráter, já não era tão moço mas não estava casado, o que levantava comentários sobre possíveis esposas mortas ou vocação seminarista. Apesar de não gostar de jogos decidiu tentar a sorte nas cartas quando viu o pai de Elisabeth apostar bêbado com outros homens. Era seu dia, ganhou tudo que havia sobrado ao pai de Elisabeth, inclusive ela. Deixou-o ficar na fazenda que morava como caseiro, mas exigiu que sua filha fosse mandada imediatamente para a fazenda onde morava.

          Elisabeth nem teve tempo de escrever a Jhon, até mesmo porque ela sabia que provavelmente ele não leria, os homens de Anthony Paul pegaram tudo que pertencia a ela e colocaram em baús, jogando-os em um trem assim como fizeram com Elisabeth. Foram dois dias de viajem, seu cabelo loiro e encaracolado estava solto e bagunçado. O trem finalmente parou. Pela primeira vez em todos esses dias, Elisabeth conseguiu chorar. Um choro alto e soluçante, desesperador para quem ouvia. Uma chuva fina começou a cair, abriram a porta do vagão.

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