A triste história do menino que tomou soda

O dia estava quente como sempre, João olhou pela janela e viu apenas o que o sol e o calor faziam com a vegetação. Sentia-se completamente fora do mundo, era como se vivesse em uma realidade paralela ao mundo e ao que as pessoas do séc. XXI chamavam de vida. Estava só em casa, seus pais haviam ido à cidade comprar algumas coisas, e apesar de ter escutado alguns barulhos que vinha da cozinha seu mal estar não o permitiu que mudasse a direção para ir até lá. Continuou seu trajeto atravessando a sala até sair na área que dava para o quintal.

Tudo estava seco como se não houvesse vida, o sol queimava a vegetação e o corpo de João, porém já estava acostumadao com sol. Atravessou o pátio olhando para o chão trincado em baixo dos seus pés, no meio do caminho parou para olhar o céu, nenhuma nuvem. Provavelmente não choveria tão cedo. A única fonte de água que havia naquele momento estava contaminada, se não fosse isso poderia se refrescar, mas não podendo continuou até a tapera no fundo do quintal.

Olhou a tapera com olhos estranhos, a exposição dos olhos ao sol havia deixado tudo ali dentro mais escuro, mesmo assim começou a vasculhar o lugar como quem não quer nada e encontrou uma garrafa que lhe prendeu a atenção. Lembrou que sua mãe havia dito para não mexer ali, mas tudo estava tão quente, tão sem sentido. Abriu a garrafa e tomou tudo em grandes goles, o líquido desceu fazendo sua garganta arder, mas ele continuou tomando até que seu corpo foi esfriando, suão mãos ficaram geladas e então ele fechou os olhos deixando seu corpo cair. Era soda.

Quando João abriu os olhos tudo já era mais claro. Ele espreguiçou no delicioso sofá almofadado e deixou a garrafa, agora vazia, rolar de sua mão. Olhou por um tempo o teto e levantou-se sentando na beira do sofá, deu uma olhada detalhada em volta e percebeu que a casa da piscina não estava tão acabada assim para ser chamada de tapera, uma mão de tinta resolveria todos aqueles pequenos probleminhas. Pegou a garrafa e jogou do lixo para que sua mãe não visse que havia bebido uma das garrafas de soda limonada que era reservada para a ceia de natal. Mesmo estando muito quente sua mãe se chatearia.

Ao chegar à porta o sol ainda castigava o imenso jardim verde, mais tarde o jardineiro traria as mangueiras para molhar toda a grama e tudo ficaria mais fresco, isso deu mais esperanças a João quanto à sobrevivência naquele dia. Foi andando lentamente pelo sol, não lhe incomodava o fato desse estar queimando sua pele, afinal sua epiderme estava acostumada com altas temperaturas em clubes para manter o tom moreno que gostava, o que lhe incomodava era o fato de sua mãe ter mandado limpara piscina justo naquele dia quente. Com a água imprópria para uso ele não poderia se refrescar ou nadar. Continuou andando  e olhando o chão de pedras rachadas que seu pai havia mandado trazes da Grécia para colocar em volta da piscina. Entrou em casa e os barulhos que vinha da cozinha não tinham cessado, deveria ser os ratos mortos de fome, algum empregado. Não se deu o trabalho de ir até lá, subiu a escadaria de mármore e entrou no seu quarto.

João percebeu que a internet ainda não havia voltado, ainda estava desconectado do mundo, longe de qualquer civilização, sem nenhum meio de sobreviver ou comunicar-se. Seus pais ainda não tinham voltado do centro da cidade, o condomínio que moravam ficava um pouco afastado da agitação da cidade, o que dava a certeza de que eles ainda demorariam mais para chegar com todas as compras para festa de natal. Abriu a janela do MSN da última coisa que seu primo, Matheus, falou. Matheus queria ir a um cruzeiro de cinco dias de uma dupla sertaneja na virada do ano, mas o pai dele, tio de João, disse que só pagaria três dias e Matheus estava revoltado.

“É muito, muito triste a vida dessas pessoas que tem de tudo e não dão valor há nada. Três dias já estão de bom tamanho. Queria que ele tivesse minha vida. Aff” , pensou João se jogando na cama para tirar um cochilo.

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