O Mais Obscuro Dos Olhares

Conto Vencedor do 2º Concurso de Contos de Terror da Área-N

– Pare de jogar pedras em cachorros menino.

Isso foi o que a mãe repetiu, mas agora pela última vez, se ele continuasse ela ia dar uma lição nele. Porém ele sabendo disso tratou de executar o Gran Finale. Pegou sua melhor pedra e lançou-a na direção de um cachorro que estava indo em direção a aquele pedaço de carne que ele havia acabado de lançar.

Quando chegou ao pedaço de carne, o cachorro começou a saboreá-lo famintamente, até que o garoto sente que é o momento perfeito e lança a pedra pontiaguda que acerta justamente o olho esquerdo do animal. Com isso ele sai chorando e ganindo a uma altura que chama a atenção da mãe do garoto que o põe pra dentro sobre puxões de orelha.

O cachorro lá está chorando com o olho a sangrar quando surge atrás dele duas mãos deformadas que o recolhem  e o coloca dentro de um furgão estranho, mas que continha o nome de um antigo laboratório que em uma explosão deixou de existir. O dono das tais mãos estava trajado com roupas estranhas e já em farrapos, porém um sorriso amarelo não saía de sua face, como se fosse uma visualização de uma possível vingança que pudesse ser executada ou que, provavelmente estava a caminho.

Um mês se passou e o garoto está jogando bola na rua quando sua bola cai na rua detrás. Ele se oferece pra pegá-la, mas ao chegar lá ele procura, mas não a acha em nenhum local, ele procura entre os arbustos, os lotes baldios e nada. Até que ele avista algo amorfo dentro de outro lote baldio. No meio ele encontra sua bola totalmente suja de sangue e furada com algo parecido com uma mordida, se não fosse pelo tamanho enorme do furo de cada suposto dente. Ele se assusta, mas volta dizendo que não achou a bola. Porém uma coisa o havia mais assustado ainda. Ao pegar a bola toda ensangüentada ele sente que há algo dentro dela e tentou descobrir o que era. Quando conseguiu retirar o objeto que estava lá dentro, eis que ele encontra a sua pedra pontiaguda que ele mesmo a preparou e lembrou-se que a havia arremessado contra um cachorro furando o olho do animal.

Mas o que estaria fazendo ali aquela pedra e como ela foi parar lá? No momento passaram várias coisas em sua cabeça, porém ele fingiu ignorar que aquilo era simplesmente um aviso, quem sabe até uma brincadeira de seus amigos.

Uma semana depois ele passa em frente a um antigo laboratório abandonado, quando ele percebe que lá dentro tem uma bola igualzinha a que ele havia perdido e reencontrado, porém essa estava novinha e lá dentro, dando sopa. Ele pula o muro, transpassa a placa onde estava escrito JOOBS GENÉTICA e verifica que a bola está realmente novinha e em ótimo estado. Percebe que realmente só podia ser um otário que tinha deixado-a cair lá e ficou com medo e não foi buscar. Estava doido pra mostrar pros seus amigos a grande descoberta, e quando ia novamente passando pela placa é surpreendido por uma dor aguda em sua nuca. Percebe então que sua vista se anuvia e ele começa a ficar tonto. Quando de repente cai em sono profundo.

Ao acordar, ele está meio zonzo e não entende nada, percebe que está em um local totalmente sem iluminação, tudo escuro. Tenta se levantar, porém suas pernas o traem e o abandonam como se ainda estivessem dormindo. Ele tenta se mover novamente e consegue se apoiar na parede e, enfim, firmar as pernas. Quando saiu tateando as paredes daquele cubículo escuro, ele percebe que uma luz saindo em um buraco posicionado em cima do que parecia ser uma porta ilumina metade da sala, que possui uma aparência como se fosse inundada de sangue antigo e recente.

Ele grita pra sair, porém sem nenhum resultado. Começa a bater com os punhos na porta, porém com isso só consegue machucar mais ainda suas mãos. Desesperado começa a chorar e pedir socorro cada vez com menos intensidade e menos esperança, até que finalmente ele ouve um barulho na parte escura da sala. Algo como se a parede tivesse sido aberta ou removida. Ele fica em dúvida se realmente vai em direção àquela escuridão ou permanece a esperar. Quando ele observa mais, ele percebe que há um ponto vermelho dentro da escuridão. Um único ponto que o observa como se fosse o mais obscuro dos olhares.

Ele fica mais desesperado ainda, mas da mesma forma ele começa a pedir por favor que isso fosse o que fosse o tirasse dali, porém a resposta que ele recebeu o assustou ainda mais. Aquilo que possuía esse olhar assustador começou a emitir um som estranho e grave, como se fosse um rosnar, porém bem mais horripilante. Quando ele percebeu, junto a esse ponto vermelho surge outro meio esbranquiçado e os dois pontos de luz se chegam perto da luz iluminando o que parecia ser a imagem mais assustadora que o garoto já presenciou.

Aquilo que possuía aquele par de olhos famintos de ódio, era algo que lembrava um cachorro, se não fosse pela seu tamanho enorme e seus dentes maiores ainda. O garoto achou ser um lobo de tão assustador ser aquela criatura canina, que deixava gotejar de sua boca aberta uma saliva grossa e vermelha que respingava por onde passava. Em suas patas haviam unhas que pareciam lâminas afiadas e seu olhar continuava assassino.

O garoto mais assustado ainda tentava recuar dessa criatura que se aproximava dele com esse instinto assassino, quando um assovio faz a criatura parar. Do meio da escuridão surge uma figura humana, mas muito estranha. Ele se apresentou como Dr. Upset e disse ser o dono daquela clínica de manipulação genética, mas acima de tudo, um amante dos cães. Ele dizia que os cães eram as coisas mais sagradas que existiam na face da Terra e que protegê-los era sua missão, mesmo que pra isso ele tivesse que partir pra genética avançada. Explicou também que era seu objetivo vingar os cães maltratados e que observava o garoto há muito tempo com suas brincadeiras sem graça. Com isso explicou que aquela criatura grotesca era aquela que ele havia lançado uma pedra pontiaguda em seu olho, e que agora era a oportunidade daquele cão se vingar.

Dito isso, o garoto implorou para que o doutor parasse com isso, que estava arrependido e que jamais faria isso, porém o doutor riu e disse que já era tarde demais pra isso e que implorar não traria o olho do cachorro de volta. Dito isso ele sumiu novamente na escuridão e novamente deu um assovio. Feito isso o cachorro voltou a mostrar aqueles dentes enormes e avançou direto em direção ao olho esquerdo do menino, arrancando-o com seus dentes afiados. Feito isso ele recuou. O garoto chorava compulsivamente e pedia pra ir embora, pra soltá-lo agora que estava feito.

Porém o doutor apenas soltou uma risada maléfica assustando mais ainda o garoto que não tinha mais forças nenhuma, todas roubadas pela dor terrível que sentia. Porém quando o garoto acreditava que estava tudo acabado, o doutor apenas disse:

– Acabou? Tudo apenas está começando.

E riu novamente, porém essa risada foi se afastando e com isso a luz se apagou completamente e o garoto ficou imerso na escuridão. O doutor então gritou.

– Quero apresentar a você ainda meus sete amigos que você também maltratou

Acompanhado a isso, uma luz iluminou rapidamente toda a sala e se apagou novamente, e nesse curto espaço de tempo o garoto notou que havia mais sete criaturas iguais ou piores que a primeira. Depois disso, só se ouviu um grito de dor que ecoava por todo o laboratório abandonado. E junto a esse grito, apenas se ouvia a risada do doutor acompanhada pelo uivo daquele cachorro que possuía apenas um dos olhos, mas com o mais obscuro dos olhares.

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