Despedida de uma professora que se aposenta.

Emprestando o blog:

“A final quem somos nós?

Homo sapiens, Sapiens! Temos os cinco sentidos desenvolvidos: pensamos, ouvimos, falamos, sentimos cheiro e tato. E os sentimentos? Esses seguem leituras diversificadas: as classes sociais determinam sua intensidade, os modelos normatizados e enraizados culturalmente.

O ser humano saiu das cavernas, descobriu o fogo, passou a viver em sociedade, inventou a escrita, se industrializou, fabricou o antibiótico e a vacina, foi à lua, fez bombas atômicas, carros, trem bala, aviões supersônicos. Encurtou distância nesse mundo globalizado, economicamente, socialmente e culturalmente.

Dentro desse meio diversificado, concentrado, está o professor, está você Arlete. Onde o contexto político, econômico e social brasileiro fez a nossa entrega ser dolorosa, árdua como diz Hilda Hilst: ”na entrega existe dor.”

Foi grande parte de sua vida, semeada e colhida na relação do contexto escolar, receptor direto do modelo socioeconômico vigente: um dia viu brotar o plantio, no outro a semente pecou.

Agora começas uma nova fase da tua jornada de vida, merecias flores, ovação, salva de palmas, carreata até então, afinal és professora, que buscou cutucar, fazer brotar questionamentos, idéias próprias de pessoas de um bairro, um cidade, formadora de uma nação. Conhecimento é poder.

A quantidade e a qualidade de idéias colocadas num contexto podem ser aceitas por uma sociedade, ou por ela negadas, quando entram em choque com conceitos ou normas culturalmente admitidos. Ainda bem. É o questionar, o pensar e agir diferente, ler as páginas da vida de maneira diversificadas que nos faz acreditar na sua, na nossa profissão.

Empresto-me do título do livro do professor Doutor Egmar Felício Chaveiro: “A vida é um engenho de passagens”; e do grande regionalista João Cabral de Mello Neto – Morte e Vida Severina. Faça dessa tua fase de vida a estrofe desse poema:

“ – Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria,

– Belo como a coisa nova na patreleira então vazia,

– Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia,

– Ou como o caderno novo quando a gente o principia.”

Já vou-me concluir, com a impertinente indagação: quem somos afinal? Responder uma pergunta tão subjetiva será muita pretensão;

Aproveitando minha origem da caatinga,

Da cor basé da poeira do agreste do sertão

É verdade, vem de dentro,

De uma professara, filha de um migrante, arrancado do torrão,

Quando você deixar essa sala e cruzar esse portão,

Tenha uma certeza na alma,

Cumpriu de bom tamanho essa missão,

E deixará aqui vários colegas que não te esquecerão. ”

Autora: Maria Ires Bezerra

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