Dentro de um Sorriso

  Era quarta-feira, dessas quartas que por serem tão comuns cansam ainda mais. De novo, só um jogo clássico entre dois times que decidiria o vencedor do brasileirão.  Eduardo estava cansado, mas resolveu ir assistir o jogo em um barzinho com os amigos para descansar, em época de eleição sua cabeça fervia junto com a empresa na qual trabalhava.

Ela chegou dez minutos depois do jogo começar, mas não parecia ter pressa de encontrar um bom lugar ou alguém. Andou calmamente pelo ambiente até chegar ao bar, pediu um Martini. Coincidentemente Eduardo dirigia-se ao bar, olhou a mulher de calça Jean e blusa florida caída no ombro esquerdo, o que deixava uma tatuagem a mostra. Algo no desenho lhe chamou a atenção, aproximou-se para ver melhor. Uma onça de pintas muito pretas olhava pronta para atacar, a cima dela havia seis estrelas. A dona da tatuagem sentiu que alguém a olhava, seu faro identificou o cheiro de Eduardo e agora poderia achá-lo em qualquer lugar do mundo. Tomou a bebida em um gole só.

Eduardo dirigiu-se para o balcão e pediu mais uma cerveja. Virou-se para voltar à mesa, a moça de blusa florida deu dois passos para trás, tropeçaram. Ele imediatamente parou para desculpar-se, ela sorriu. Seus dentes e boca prenderiam a atenção de qualquer homem, claro, se eles conseguissem tirar os olhos do seu decote ou do cabelo negro estrategicamente desarrumado que usava. Ele se deu a oportunidade de perguntar o nome dela. O som tava alto, era necessário mais proximidade para ouvir o outro, vinte minutos de jogo e de conversa ao pé do ouvido. Intervalo, mais uma bebida. O segundo tempo começou e para Eduardo o jogo a ser vencido não estava mais na televisão, ele calculou mentalmente que precisaria de mais vinte minutos, em quinze eles trocaram telefone e ela tirou o time de campo. Talvez não fosse uma quarta tão comum assim, mas com certeza não era a melhor delas. Eduardo não sabia disso.

Algumas ligações, saídas, um concerto no fim de tarde e ela amanheceu no apartamento dele. Saiu cedo, antes que ele acordasse e deixou o café pronto. Ele acordou e conferiu o apartamento, não a encontrou e deitou novamente entre os lençóis tentando encontrar o cheiro dela. Lembrou vagamente do sonho que teve, estava em uma selva, e um rugido animalesco o perseguia. Não se deu o trabalho de tentar lembrar o restante, havia detalhes mais interessantes da noite passada e não era sonho. Há tempos não se sentia assim, ela dava a ele um frio na barriga irracional e aquela vontade boba de querer sai de casa sorrindo, agora não havia só políticas, partidos e futebol as quartas, existia também ela e Eduardo se sentia muito bem. Neste dia, passou a manhã pensando em ligar, desistiu. Pensou em mandar flores, mas não o fez. As 18:10 da tarde seu carro estava parado em frente ao trabalho dela e ele a esperava com lírios nas mãos. Ela saiu e fingiu um susto que não levou, ele não seria diferente dos outros caras, é claro que a procuraria. Andou delicadamente em direção a ele e, como uma onça, deu-lhe um bote colocando as mãos entorno do seu pescoço, beijaram-se.

Continuaram a se ver com mais freqüência, as ligações aumentaram, o aniversário dele chegou e trouxe festa, presentes e uma comemoração especial no apartamento dela. O espaço era pequeno, mas decorado com muito bom gosto. Pela quantidade de fotografia espalhada pelas paredes logo se percebia que uma fotografa morava ali, onças, crianças, prédios e cogumelos dividiam harmoniosamente espaço nas paredes. O quarto só não diferia dos outros cômodos pela quantidade de fotos, ele deveria ter quase o tamanho de todos os outros cômodos juntos. Gigantesco, uma cama feita em material e tamanho personalizado ficava ao lado da porta, e havia também um guarda-roupa de doze portas dividido em dois pela curva da parede. Achou engraçado quando descobriu que ela amontoava tudo em só um dos lados por preguiça, aproveitou para sugerir algo que já vinha pensado dias antes e em tom de brincadeira perguntou se poderia amontoar as deles na outra parte quando os dois começassem a morar juntos. “Vamos com mais calma. Eu aviso quando for querer usar o outro lado.” sussurrou ela. Eduardo entendeu e começou a torcer para que isso não demorasse. Ela também.

As eleições chegaram e com ela as constantes viagens de Eduardo começaram. Dias antes dele viajar para resolver detalhes da candidatura de um prefeito em outro estado, o velho sonho com o rugido de uma onça veio interromper seu sono, mas com isso já estava acostumado, o estranho foi quando percebeu que estava com um arranhão no peito e ele parecia feito por um bicho. Quando ela entrou no banheiro viu que Eduardo olhava, ainda confuso, o arranhão no espelho, imediatamente o abraçou pedindo desculpas. Ele pensou em falar que pelo tamanho do arranhão não havia sido ela, mas ela começou a beijá-lo e o arranhão foi perfeitamente esquecido.

Quando Eduardo finamente viajou, ela percebeu como ele lhe fazia falta, sentiu falta dos beijos, mordidas, e inexplicavelmente viu-se com saudades dele. Talvez fosse hora de usar a outra metade do guarda-roupa. Na capital de outra cidade ao norte, Eduardo tentava se concentrar no trabalho e não pensar naquela mulher de tatuagem nas costas e blusa florida que se tornou tão importante na sua vida. Quando chegou à cidade foi imediatamente para o apartamento dela, pegou-a com uma camisa dele tomando café. Ela o abraçou jogando-se em seu pescoço e delicadamente o levou para o quarto. “Descidi que está na hora de usar a outra metade” ela sussurrou no ouvido de Eduardo enquanto o emburrava para dentro do guarda-roupa. “Um fetiche de boas vindas?!” pensou ele, permitiu-se.

Ele apertou o corpo dela ainda mais no seu deixando-a nas pontas dos pés, entraram, ele fechou a porta. Sua mãe desceu pelas costas dela, ela mordeu seu queixo. Antes que ele pudesse continuar sentiu unhas cravarem em suas costas e o corpo dela ganhava forma de uma onça e ficava cada vez mais pesado. Ele gritou, várias vezes inclusive, enquanto ela retalhava e devorava todo seu corpo.

Depois de já tê-lo devorado abriu a porta com o focinho e saltou sobre a cama lambendo as patas ainda sujas de sangue. Adormeceu. Às nove horas da noite desse mesmo dia, um homem ruivo deixou a namorada na mesa e foi até o bar da boate pedir uma bebida, a sua frente havia uma mulher em um lindo vestido branco. Ela tinha uma tatuagem, ele observou, era uma onça, havia sete estrelas a cima dela. Ele pediu um wisky e uma margarita para o barman, virou-se para sair e a mulher de vestido branco deu dois passos para trás, tropeçaram. Ele virou para desculpar-se, ela sorriu.

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