Um céu cinza.

  Para ser lido ao som de Someone Like You- Adele

Parada, olhos fixos e o pensamento ali, naquele exato lugar, naquele banheiro. Era isso que eu mais temia e aconteceu. Do nada me pus a pensar em você, daquele jeito que há muito tempo eu evitava. É que peguei o preguiçoso habito de contar riscas de cerâmica, nuvens, fósforos e desenhos de roupa sempre que te vejo para evitar esse angustiante fato de pensar em você. Mas hoje não deu.

Pensei na nossa distância, e confesso que nesse ponto fui muito covarde. Fugi de você, dos seus problemas, da sua incapacidade de resolvê-los, da sua ingenuidade e acho que em algum momento eu até cheguei a lhe odiar. Eu já pensei em te magoar muito, daquele tanto que faz a gente acordar com a cara inchada e um vazio ensurdecedor na cabeça, mas eu não posso. A vontade que tenho de cuidar de você é maior. Tenho vontade de te passar toda minha coragem a ponto de não em restar mais nada, só para você ter um pouco mais de bagos e resolver a vida. Ou talvez, coragem seja essa sua de resolver tudo assim, acreditando que no final vai dar certo, que as coisas vão melhorar, que as pessoas vão mudar. Provavelmente covarde seja eu que ando pisando em ovos para não me machucar, que não dou a minha cara a tapa, que por medo de ser magoada tenho causado hematomas em mim mesmo sem precisar de ajuda nenhuma.

Não posso acreditar que estive na sua casa, não de novo. Sua casa é a constatação de uma realidade que não posso evitar, e ela se esfrega na minha cara desde o momento que paro em frente ao seu portão. Ela faz meus pensamentos lembrarem tudo aquilo que você finge ter esquecido, e não me venha dizer que esqueceu porque eu sei que tudo aquilo ainda te machuca. Se você soubesse como isso dói de uma forma assustadora, e enxergasse como você ainda faz questão de continuar em meio a tanta dor, iria entender às vezes que te odiei, te amando.

Não sei em qual azulejo do seu banheiro deixei que os números fugissem do meu pensamento, dando espaço para tanta coisa. Mas do nada comecei a imaginar como seria sua vida naquela casa, como seria acordar e se olhar no espelho passando por tudo que você passa. Pergunto-me quantas lágrimas você já derramou enquanto tomava banho, pensei em como estive distante e como ignorei todas essas lágrimas que não vi cair. Por um momento senti-me envergonhada de dizer que o que sinto por você é amor, que amor é esse?

 Pensei em todas as escolhas feitas que nos trouxeram até aqui. Pergunto-me porque você optou por elas, será que em nenhum momento você foi capaz de ver esse furacão, ou será que você viu, mas preferiu acreditar que tudo se acalmaria?! Tive tempo ainda de me perguntar como seria se você tivesse a chance de fazer novas escolhas, se você não tivesse optado por entrar nesse furacão. Queria saber como seria te abraçar novamente sem ter que te lagar tão rápido para não chorar, e abalar a ordem do “você finge, eu minto que acredito e gente diz que está tudo bem”. Queria a liberdade que tínhamos de volta, as conversas nas quais não tinhamos que ficar selecionando o que podíamos ou não contar, queria a liberdade de andar pela sua casa de toalha, de ouvir você me dar algum conselho sem que ele fosse baseado nas suas dores.

 Talvez eu não seja tão forte quanto você pensa, parece que há mais dor do que consigo suportar, não é uma questão de querer…  por isso finjo que não sei da sua vida. Por isso evito estar na sua casa, por isso tenho contado azulejos, feijões, gomos nos sucos de laranja, e tudo mais que me obrigue não pensar em você, estando com você. Perdoe-me, mas nem minha fé consegue mais enxergar o fim dessa tempestade.

“São de arrependimentos e erros que as lembranças são feitas.

Quem poderia saber o quanto seria amargo o sabor dela?”

Adele

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