Conversa fiada

Essa história eu ouvi lá pras bandas de um interior que costumo viajar, mas já vou avisando que não passa de história. O fato é que dizem que no alto de um morro, duas porteiras pra lá da fazenda onde fico, mora uma senhora solteira com sua mãe bastante idosa. Mariza e Matilde, respectivamente. Os olhos azuis e a pele branca de Mariza mostram para quem tem cuidado no olhar que a moça já foi bonita por demais.

Quem vem de fora não entende porque Mariza não casou, mas a vizinhança que já é velha de casa lembra-se, embora não comente, da história que afastou ela das festas e socializações em que os fazendeiros aproveitavam para casar seus filhos.

Dizem que há muito tempo atrás, quando a juventude da moça ainda não tinha sido tirada pelo tempo, apareceu na fazenda um tal de Alaor, leiteiro. O que se sabe hoje é que, se Nossa Senhora existir e ouvir oração de mãe ele já não dá no coro faz um bom tempo. Porque embora coração de mãe já venha revestido de aço para suportar de tudo, qualquer desgraceira faz um estrago que só quem é mãe consegue entender.

O tal leiteiro tinha a função simples de ir de fazenda em fazenda recolhendo todo o leite para vender no laticínio. Era fácil e não tinha como dar errado, mas acontece que o ‘acaso’ é menino levado e quando vê tudo assim, calminho, faz questão de aprontar. Um dia, enquanto recolhia o leite da fazenda de dona Matilde, aconteceu dele ver umas pernocas brancas se banharem em um banheiro de palha perto de um paiol. O tal do Alaor que de besta só tinha o sorriso e o andado, achou muito digno se aproximar e cumprimentar a dona da casa para tentar descobrir quem era a dona daquele par de pernas que despertaram nele as vontades mais sacanas. Se bem, que pouca coisa no mundo vindo de uma mulher não despertaria os desejos de Alaor. Enquanto perguntava da saúde de Matilde, aproveitou para vigiar a doninha que saiu do banheiro embrulhada em uma toalha rosada com flores azuis. Alaor calculou que se fosse embora naquele momento cruzaria com a moça antes que ela conseguisse entrar em casa. Rapidamente despediu-se e virou-se passando por Mariza a tempo de fitá-la dos olhos até a última gota d’água que escorria ao chão. A moça enrubesceu, como moça faz quando se sente desejada, e apertou a mão na toalha para que Alaor não a fizesse cair só com os olhos.

– Diá, moçá.

Mariza entrou em casa sem saber o que responder, porque quando a vergonha é demais um “Diá, moço” é difícil dizer.

No outro dia, a moça sentiu vontade de retribuir o cumprimento e assim que o leiteiro chegou ela apareceu no curral com um prato de bolo e café.

– Bom dia, moço!

Alaor virou e ao ver Mariza não segurou o sorriso enquanto limpava a mão nas calças.

– Mas aô que o dia gora ficou bunito por dimais, doninha. – Sorriu coçando a barba mal feita. – Cê e a fia da dona Matirde, né?!

– Sim, a Matilde é minha mãe. Meus irmãos se casaram e como eu sou a caçula só ficou eu e ela.

– A mode que se eu subesse disso já tinha apiado pra trabaiá por aqui antis.

A moça sorriu ingênua enquanto Alaor a despia mentalmente.

– Meu nome é Mariza, se precisar de alguma coisa é só falar. – O acaso sorriu.

– O meu é Alaor, ao seu dispor.

Mariza, que tinha feito magistério e era uma professora admirada pela região, começou a ir dar aulas mais feliz e arrumada, usando como desculpa o sol do verão. Esse mesmo sol era usado por Alaor como desculpa para chegar às sete da manhã sem camisa na fazenda.

Os dias foram se indo, os sorrisos aumentando, o café servido no curral ganhou a mesa, as conversas de pé de porteira ganharam algumas tardes e uns pedacinhos de noite. Mas o ‘acaso’, danado que é, não estava feliz e fez com que Matilde adoecesse no dia em que mãe e filha faziam planos de pegar carona com o leiteiro para ir à cidade fazer compras. Alaor não fazia parte do sindicado dos lojistas, mas ficou tão preocupado das compras não se realizarem que insistiu em levar a moça na cidade sem que Matilde precisasse se preocupar.

Mariza entrou na caminhonete com toda sua ingenuidade como quem embarca rumo à felicidade. Fez as compras na cidade e cuidou para não se demorar, como se o ‘acaso’ estivesse cochichando algo no ouvido dela. Ou não seria o ‘acaso’ quem sussurrará no ouvido dela?! No caminho de volta, dado o calor, por aquele mesmo sol de verão que já falei, pararam o carro embaixo de uma árvore. Alaor – estabanado que disse ser – relatou ter perdido uma medalhinha no banco de trás da caminhonete e a moça – bondosa que era – foi ajudá-lo. Bastou Mariza ir para o banco de trás o leiteiro a agarrou. Apesar de deixar ser beijada, ela jurou para si mesma que diria ‘não’ no primeiro ‘uai’ que ele soltasse. Ela era estudada, não poderia se envolver com um cara xucro como ele. Mas quando Alaor abriu a boca o que Mariza ouviu foi:

– Doninha, perdão se ouso confessar-te, mas meu peito não resiste mais a dor desse amor que me faz penar pela incerteza de te ter. Será Deus clemente ao ponto de me deixar ser digno da mais linda flor que na terra já foi colocada?!

Mariza tentou dizer alguma coisa, mas os beijos de Alaor a impediram, melhor assim, pois ela nem sabia o que dizer. Os beijos começaram a caminhar para pescoço, nuca, colo e Mariza esperando o ‘uai, sô’, quando ele disse:

– Desde quando te vi pela primeira vez te achei divina e formosa. Você foi esculpida com ardor pelos anjos.

Seguiram-se beijos e mais beijos, a mão dele entrou por debaixo da blusa rendada que Mariza usava até chegar ao feixe do sutiã fazendo todo corpo dela vibrar. E então, Alaor disse:

– Dei-me um pouco mais.

O que aconteceu depois disso, dizem que nem Mariza lembra. O fato é que a moça, ou melhor, Mariza, voltou para casa na quarta achando que ainda era terça e dizendo que choveu sem ter uma nuvem no céu. Depois disso ela precisou ir à cidade mais duas ou três vezes, e mesmo sem chuva a caminhonete sempre achava uma poça pra atolar.

Algumas semanas depois e o leiteiro não apareceu mais, assim, sem aviso prévio. Contrataram outro leiteiro e o céu nublou por meses.

Mariza não quis mais sair de casa, mesmo vários pretendentes dizendo que isso era o de menos, seu recato não a deixou namorar mais ninguém. Tem gente que diz que não foi recado, mas que a pegada do tal Alaor era capaz de levar uma mulher a sentir sensações que até então eram desconhecidas por qualquer mortal e como nenhum outro homem chegaria a dez por cento disso, Mariza se desiludiu. Resolveu ficar só.

Em uma reunião, realizada com todas as mulheres da região, decidiram que essa história ninguém comentava mais e que a partir daquele dia não se tocava no nome de Alaor porque, de acordo com as presentes, a tal pegada não era algo bom para ficar se lembrando, apesar de ser boa ou exatamente por isso.

Muito gentis essas mulheres em entenderem – rapidamente – o frenesi que Alaor causava. Mais gentis ainda foram elas em decidirem que naquela região não se tocava mais em qualquer fofoca que envolvesse o nome do tal leiteiro. O que explicaria tanta bondade?! Bom, deixo a cargo da imaginação de vocês, leitores. Mas posso garantir uma coisa, Alaor era mais que um homem, era uma sensação inteira.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s