Afago

Por aqui está tudo tristonhamente mais calmo e disperso. Não tenho mais, inutilmente, tentado segurar o tempo, soltei a corda que havia amarrado a ele e ele, que antes se arrastava, agora voa. Tive a sensação que pulei de março para agosto em três dias. Entender que você não vai voltar me fez perder o medo que sentia do caminhar dos ponteiros. Não queria que houvesse tempo para você conhecer e se apaixonar pelas manias de outra pessoa, me esquecer ou esquecer nossas histórias, mas nada disso faz sentido agora.

Obrigada por finalmente ter me feito acreditar que não daria certo, no fundo ainda não havia me convencido disso, mas você, sem usar uma palavra grosseira me convenceu de tudo. Não você, sua covardia, sua falta de ‘fazer questão’ me provou que não importava quantas montanhas eu movesse a gente não ficaria junto e então eu parei de correr por aqui, parei de tentar ‘permanecer’. Pra ficar junto é preciso coisas simples como: querer, tentar … Mas você não é desses, me pergunto se algum dia foi, se alguma vez pediu e fez questão de que alguém ficasse. Muitas vezes penso se foram esses longos anos de diferença que nos separam que te fez ver a vida assim, tão racionalmente sem nenhum tom saudosista ou melancólico de sépia. Ando desejando que quando eu tiver a sua idade ainda tenha coragem o suficiente para acreditar que vale a pena correr atrás de alguém que se queira bem. Talvez fosse eu que não era querida como ‘bem’, não descarto a possibilidade embora reconheça que assim fica um pouco mais dolorido para mim.

Por enquanto estou deixando que o tempo, sem nenhuma pressa, leve tudo que já fomos um dia. Já que o quê o destino reservou para gente não é estar junto, vez ou outra me dou o direito de afagar nossas lembranças porque algumas ainda possuem o seu sabor e eu gosto dele. E por falar em lembranças, você sabe que nunca fui boa para memórias auditivas, tudo que ouço sempre se perde em ruídos e silêncios indecifráveis dentro de mim, mas em um desses domingos enquanto lutava em não levantar da cama lembrei de alguns momentos que estivemos juntos, fiz um mega esforço e consegui ouvir sua risada. Consegui distingui-la de todos os outros sons, e que som bom ela tem, moço bonito. Agora, em alguns fins de tarde você ainda sorri para mim, aquela risada rouca e contida com esse seu jeitão de cara sério e reservado.

Por vezes o som da sua risada me sufoca e é como se eu quisesse arrancar algo de dentro de mim, às vezes nem dá tempo porque alguém pergunta em que eu estou pensando e me tráz para o mundo real. Não existem mais lágrimas, só alguma coisa apertada aqui dentro, uma vontade de você que não passa e a certeza de que agora saudade tem nome, sobrenome e endereço fixo.

Te excluir da minha vida, mesmo que dos lugares mais periféricos,  assumir que não tem mais volta, que tudo já está estragado demais para a gente voltar foi bom, não passo mais parte do meu tempo de dedos cruzados desejando que, sei lá, você apareça ou ligue do nada, também não tenho mais te pedido para Deus… é, acho que finalmente me convenci de que você não vai, não deve e não faz sentido voltar. Em muitas de nossas lembranças sei que ainda vou te afagar e já decidi que darei a elas o tempo e espaço que quiserem até que um dia, cansadas de mim, elas resolvam voar.

E quer saber  de outra coisa boa? Você não está o lendo esse texto.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s