Do verbo pertencer

Ela estava deitada na cama, olhos fixos nas molduras brancas de gesso, que na verdade não via. Respirou fundo e parou de morder o polegar que era segurado entre os dentes e o colocou na esquia barriga onde, sem perceber, começou acariciar lentamente. O quarto não era pequeno, mas naquele dia estava insuportavelmente apertado e quente. Não havia o que fazer, não dependia mais dela resolver aquelas questões que perturbava sua mente, ela sabia e aceitou isso com a tranqüilidade exterior de que aquela fosse a atitude mais heroica para resolver a situação. No fundo se sentia covarde, mas por aceitar não permitiu lágrimas de preocupação, pernas ou mãos nervosas e se jogou na cama tão superficialmente calma que ninguém jamais perceberia a tormenta que ela lutava para segurar silenciosamente.

Seu nervosismo dava, contraditoriamente, um tom tão calmo e amigável a sua voz que poderiam supor que tanto desligamento do mundo exterior não passaria de uma paixonite. ‘Quem dera’, pensaria ela se nos ouvisse agora. Seu estômago gritou por comida e a trouxe para fora dos seus pensamentos, apesar da fome não sentida vontade de comer. Virou de lado e deparou-se com o celular, queria contar o que estava acontecendo para alguém, não porque quisesse conselho, ajuda ou uma solução, queria apenas ser ouvida. Pensou que com isto o problema sairia do seu estômago e a deixaria comer. Sua cabeça doeu. Pegou o celular e começou a olhar os contatos. Chegou no último e não sentiu vontade de ligar para ninguém, não que não houvesse alguém, sempre havia alguém com quem compartilhar as coisas grandes, conquistas e dias bons. Sempre havia alguém para beijar, sair e estranhamente eles também estariam ali para não beijar, conversar, olhar nos olhos e ouvir. Simplesmente, apesar deles existirem, ela não se sentia bem em falar das suas miudezas com nenhum deles.

Foi então que percebeu que não pertencia, a nada e a ninguém. Não pertencia a um amigo ou amiga a ponto de ceder a eles seus segredos, não pertencia a uma pessoa com amor o suficiente para dividir sua vida. Percebeu que sempre foi assim, seus segredos, reais sentimentos, pensamentos, tudo trancafiado dentro dela, em discussões, apodrecimento, esquecimento e amadurecimento com ela mesma. Não havia muito dela espalhado em pessoas, a não ser sua presença, fora isso mais nada de si estava fora dela. Percebeu que pertencia unicamente a si.

E por pertencer unicamente a si mesma e descobrir-se não pertencente a mais nada se sentiu incomodada. Não porque não soubesse disso, mas perceber a vez refletir sobre acontecimentos já passados. Acostumou-se a ouvir os problemas dos amigos e a guardar os seus. Acostumou-se a estar com alguém, mas não se envolver ou ir embora quando isso parecia prestes a acontecer. Não sabia dar-se, uma vez que isso significaria pertencer um pouco a outro alguém. Mas não fazia isso conscientemente, fazia naturalmente como respirar.

Era apenas uma característica, assim como nascer preto, branco, amarelo ou listrado. Mas diferente delas, não pertencer era um fardo, uma incapacidade. Enquanto todos buscavam e lutavam para se sentirem pertencentes desde o primeiro instante de vida, seu ser contorcia-se não se deixando pertencer. Tão natural e característico de si que não pertencia sem notar, não pertencendo tão discretamente que a sua volta não percebiam. Gostaria de pertencer, sim já havia querido, mas não conseguia, era como se essa atitude necessitasse um esforço sobre-humano que, por mais que ela lutasse, não alcançava nunca. Se sentia incapaz de pertencer.

Levantou da cama e a tormenta parecia levantar-se com ela, teve vontade de gritar. Respirou fundo enquanto caminhava em passos lentos até a cozinha, pegou o tênis que ficava atrás da porta, as chaves, caminhou até o portão e deparou-se com a rua que pertencia ao bairro, que por sua vez pertencia a uma cidade, pertencente a um estado. Seu estômago pareceu novamente embrulhar rejeitando qualquer pensamento de alimentar-se. Precisava livrar-se daquela preocupação. Ligou o celular em uma estação qualquer de rádio, calçou o tênis e começou a correr. Ela já havia aprendido que quando não se pertence é preciso descobrir outras maneiras para aliviar as dores que geralmente são aliviadas em conversas ou abraços, mas pertencer não é para qualquer um, é dom.

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