Sobre ela

melancolia tristeza desenhoSabia-se triste em cada acontecimento do ano que acabava, até nos mais felizes. Parou para pensar e viu que não havia nenhum acontecimento drástico, nenhuma morte, cortes ou amputações. Algumas despedidas superadas e mesmo assim uma tristeza sem explicação rodeava cada mínimo acontecimento, principalmente o que dizia respeito aos 58,34% do que chamou de início do ano.

“O ano da cura.”, pensou ela. Um ano em que foi preciso deixar que o tempo sozinho curasse todas as feridas e o tempo da cura acabou por tornar a tristeza normal, era isso, agora tinha certeza. Lembrou-se dos dias de sol em que por mais ensolarados que estivessem carregavam sempre uma manta cinza que só ela via. Não havia dividido nada daquilo com ninguém, calou e deixou que tudo silenciosamente desabasse por dentro. Foi preciso milhões de disfarces para curar-se do que os outros se quer sabiam que estava acontecendo. Que aquela tormenta acabaria nunca duvidou, mas tinha medo do quanto duraria ou dos estragos que deixaria, agora com menos lágrimas nos olhos podia ver que os resultados eram melhores que o esperado. “Mas também um ano, um ano é muita coisa!”, se sentiu tola ao pensar isso.

Achou irônico como em um único ano deixou de acreditar em diversas coisas, para voltar acreditar nas mesmas coisas de uma forma até mais intensa do que antes. Ela já estava voltando para aquele estágio de acreditar-desacreditando e gostou disso porque era sinal de que a vida, aos poucos, voltava ao normal. Um ano para curar os estragos de outros anos e apesar de dizer-se curada ainda havia ficado o medo de frequentar certas ruas, lugares, assim como às vezes ainda era preciso mudar o pensamento de direção para evitar lágrimas. Ficaram ainda as cortinas e janelas cerradas, o celular sempre no silencioso, algumas chamadas bloqueadas e a vontade de fugir.

Ela poderia ter aprendido de cara que não adiantava quão longe fosse os acontecimentos e histórias que viveu ainda sim estariam dentro dela, mas não, primeiro foi necessário aprender a correr, foi necessário ir longe para perceber que as lembranças iriam acompanhá-la independente de latitude ou longitude.

Ela pensou nisso e em outras coisas que o ano havia ensinado, dentre todas as coisas difíceis pensou que a mais doída delas era tornar-se estrangeira do que outrora foi nativa. Ser exilada do país no qual aprendeu a viver e ter que buscar outras terras para construir de novo o que não quis destruir. “Não sou boa em construções, principalmente neste tipo de construção.”, suspirou enquanto vaga em acontecimentos que muito provavelmente só ela saberia. Percebeu então, que ainda pior do que tornar-se entranha ao continente que foi íntima era ter o passaporte para, com permissões, visitar aquilo que já teve sem reservas. Ver outros saberem daquilo que ela ainda nem tinha conhecimento, as mudanças climalíticas, alterações da maré, planos, sonhos, sorrisos, textura das mãos e tantas outras coisas que um ano trazia de novo.

Percebeu que a tristeza crônica do ano que acabava fez com que ela não se importasse em machucar ou arriscar coisas que pudessem abrir novas feridas. Ela perdeu a paciência com a lentidão dos ponteiros, deixou de gostar do que antes admirava, suspirou, chorou e deu-se vencida diante de tanta dor. Quanto menos esperou, o céu sem nenhuma pressa resolveu se abrir, ela estranhou a luz e o dia claro. Seus olhos doeram, mas ela sorriu. Era hora de fazer planos, acreditar, tentar e deixar tudo aquilo para trás. Era um novo ano e tudo era possível, de novo.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s