Conversa de ponto

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Era uma quarta comum, na cabeça rolando o checklist das coisas a fazer durante o dia e uma vontade de não ter deixado os fones na agencia para ir ouvindo Beirut. Mas não usar fones tem lá suas vantagens, porque se existe um prazer em andar de ônibus esse é saber/ouvir/participar da vida alheia de maneira involuntária. Um deleite que os fones atualmente me roubam com certa frequência.

E quem vê a vida privada tornar-se pública nos transportes urbanos sabe que existem alguns fatores básicos que influenciam as boas conversas. Por exemplo, o ônibus não pode estar muito cheio ou muito vazio, ambas as situações inibem as pessoas falarem das suas histórias pessoais. E também, pontos de ônibus são geralmente lugares propícios a desfrutar da vida alheia que é conversada por telefones. E essa história está aqui para provar.

Quarta, talvez por falta do que ouvi, me peguei prestando atenção na ligação de uma mulher que, assim como eu faz parte dessa massa, que gira toda essa engrenagem e já sente o ferrugem lhe comer, esperava o ônibus.

Ela disse para alguém do outro lado da linha:

– Alô! Aqui é a Silvia, esposa do Alessandro.

Me peguei pensando qual seria o motivo de uma mulher ligar se identificando como esposa de alguém. Motivo banal, a menos que você não tenha nada para fazer além de esperar. Será que eIa iria pedir um favor, dizer que ele não ia trabalhar, contratar um serviço?

– Eu queria saber se você tem notícias do Alessandro. Não… ele não dormiu em casa e eu queria saber se você sabe me dar alguma notícia sobre ele. Se ele apareceu ai.

Cachorro, pensei na hora. Imaginei na hora o Alessandro e o vi embrulhado apenas em um fino lençol na casa na amante. Com certeza era alguma data especial para o casal de amantes e na calor da comemoração ele esqueceu de voltar para casa. Certeza. Se foi a primeira ez que ele fez isso talvez já estivesse acordado procurando uma desculpa; se é acostumado a fazer isso ainda estaria esparramado preguiçosamente com a outra, prometendo que ia tentar voltar o quanto antes.

– Ele deixou o celular em casa. Celular e carteira…

Minha imaginação deu um loop e pá, já sei. Os dois brigaram e o Alessandro saiu de casa. Infantil, imaturo, não sabe discutir um relacionamento e foge, abandona, vai embora. Foi isso que ele fez, ficou com raiva e saiu deixando tudo. Deve ter passado a noite com os amigos e dormido na casa de um primo. E agora Silvia está ai, ligando pra alguém que ela parece não ter a menor intimidade para perguntar do marido.

– É. Não a mãe dele não sabe também. Mas meu pai está lá em casa, foi pra lá pra se ele chegar.

Calma, a Silvia não se mostrava nenhum pouco preocupada. Estranho, o marido não dorme em casa e ela assim de boa. Talvez eles brigaram, ela perdeu a cabeça e fim, acabou com Alessandro. Coitado, pobre Alessandro, morrer em uma noite tão linda. Será que foi antes ou depois da chuva? Agora o coitado que foi um cachorro e depois imaturo era um pobre defunto que jazia em alguma cova rasa enquanto sua esposa tentava fazer a inocente. Pobre Alessandro, pobrezinho.

Silvia desligou o celular e quando eu, fingindo que ia arrumar o cabelo, olhei para trás ela guardava o celular na mala. Espera ai, mala? Silvia, culpada que era pela morte do Alessandro, estava fugindo da cidade. Alguém chame a polícia, precisam deter essa assassina. Pensei.

Passa um, dois, três ônibus quando cai a ficha: nenhum ônibus que passa aqui vai para rodoviária, pelo contrário, sentido oposto. Então o desanimo tomou conta porque provavelmente a história era bem mais simples. Alessandro provavelmente estava vivo, na casa de alguém e Silvia iria se vingar dormindo fora. Talvez também envolva a casa de um primo, será? Hum, se houver primo na história Alessandro está ferrado.

Meu ônibus passou e eu tive que me despedir de Silvia e Alessandro, poxa Alessandro, cadê a consideração por mim, me matar de curiosidade assim em uma quarta-feira? Podia ter ligado para Silvia, ela falaria alto de raiva de você e eu saberia o que aconteceu. Enfim, achei falta de consideração com a desconhecida aqui.

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