E do meio desse mundo que me diverte, só amores guardei por meu carpete.

Carpete-internoUm carpete feito de couro cru turco com lã de ovelhas holandesas e costurado com linhas de tear grego. Era o que estava escrito no Testamento de minha falecida Tia que seria então a parte do inventário que sobrara para meu pai. De acordo com muitos da família, o mesmo valia o preço de um bom carro, para outros não passava de mera imitação e era um dos objetos mais inúteis de todo inventário. Meu pai não sabia se ria ou chorava, mas em uma casa onde foram criados 18 filhos, era natural que fosse tudo dividido de forma extremamente minuciosa e para completar a situação, os bens mais valiosos foram leiloados para pagar as dívidas que a Matriarca da família contraiu em vários Cruzeiros.
Foi complicado para transportá-lo, mas quando chegou ficou jogado de lado em um
quarto do fundo, a sala estava em reformas, mas depois que tudo acabou minha mãe decidiu coloca-lo em frente à TV. Ele era muito macio e gostoso, não se assemelhava a um colchão, porém era muito gostoso de deitar por ele. As lãs envolviam nossos corpos e nos
transformavam em parte integrante da peça de tal forma que era muito, mas muito
confortável. E foi em uma dessas noites confortáveis que em cima deste mesmo carpete fui concebido.
Logo após ele fez parte da minha vida em vários instantes. Meu pai sempre me conta a
história de quando dormi sobre a barriga dele ainda bebê e em um ímpeto dele e um
movimento inesperado, ele se virou levemente para a esquerda, o que resultou em um
escorregão suave e fui parar direto no carpete. Quando minha mãe chegou, lá estávamos
ambos dormindo, ambos de barriga pra cima e no melhor sono do mundo. Meu pai acordou assustado tateando o peito me procurando mal sabendo ele que foi praticamente a primeira vez de muitas que dormiria sobre aquele carpete.
Aprendi a engatinhar sobre ele e minha primeira queda ao andar foi direto sobre ele
também e, segundo meu pai, era meu canto favorito de brincar. Servia como um cercado,
porém sem limites físicos. Era só me colocar em cima do carpete que eu não descia por nada.
Ao crescer, o carpete se transformou em várias coisas pra mim. Floresta para meus
soldadinhos de plástico, relevo mais acidental para meus carros que simulavam um Rally ou um campo vegetal para meus guerreiros. Isso sem contar no meu canto favorito para assistir meus desenhos de manhã ou meus filmes a noite.
Nem só de coisas boas tenho lembranças. Foi embaixo dele que descobri guardado um
dinheiro escondido de meu pai. Comprei todo em balas e as saí distribuindo para amigos. E no meio deles, a mais especial de todas com meu sabor favorito foi para ela. Joyce. Ela amou o doce que recebeu e me deu um beijo estalado nas bochechas pelo presente. Fiquei flutuando em um mundo de felicidade que só acabou quando senti a primeira chinelada nas coxas que veio sem eu perceber. Meu pai me deu uma senhora surra naquele dia. Teve também o dia que, de forma desastrosa, derramei suco de uva no mesmo. Tentei de todas as formas desfazer a mancha enorme que foi gerada no carpete. Eu usei detergente, limpa forno, limpa vidro e nada funcionava. Mas o pior mesmo foi que apesar de todas as tentativas, o carpete continuava sujo e fiquei uma noite inteira sentado em cima da mancha para meu pai não perceber. A vontade de ir ao banheiro era muita, mas segurei até meu pai dizer que ia dormir. Feito isso, peguei um copo na cozinha, enchi com suco de uva e despejei apenas para deixa-lo sujo. Coloquei o cachorro do meu lado e pus o copo por cima de suas patas. Ele começou a lamber o copo e fingi surpresa ao ver a cena. Chamei minha mãe para verificar e ela viu que o cachorro “tinha derramado suco no carpete”, porém o que não sabia era que esse seria o estopim para minha mãe dar o cachorro para minha tia. Chorei muito, mas não tive coragem de contar a verdade.
Minha vida toda se passou com esse carpete sendo testemunha de tudo que se passou. Desde os melhores filmes que assisti, quando jogava videogame em cima dele com meus amigos e com a Joyce, quando devorávamos pipoca e várias guloseimas, admito que até
as novelas que víamos, lá estava ele. Em cima dele debrucei vários livros para estudar para meu vestibular, concursos e livros divertidos que lia por curiosidade. Infelizmente, chegou o fatídico dia onde eu teria que me despedir dele. Cresci por sobre o carpete desde minha mais tenra infância, mas quando anunciaram que eu teria uma pequena irmã, não sabia que era o começo do fim. Ana nascera com rinite alérgica e não pode
ter privilégios como eu de deitar em cima do carpete, brincar em cima dele, aprender a andar utilizando-o. Era só chegar perto dele que a mesma já começava a espirrar ou congestionar-se.
Tudo isso levou a situação onde teríamos que nos desfazer dele. Isso e vários outros
problemas financeiros pelo qual passamos. No final das contas. Aqui estou eu agora. Dirigindo o carro de meu pai com o carpete no porta malas. Ao final de um Leilão, o carpete, mesmo com uma singela e discreta mancha de suco de uva, foi arrematado por uma boa quantia, e até mais que esperávamos que fosse. Toda essa história veio na cabeça de uma vez para mim e me lembrei de todos os detalhes. Esse sim acompanhou minha história até hoje e agora iria pra outra casa ou loja e absorver mais histórias de outras pessoas. Eis que cheguei em meu destino, ao abrir meu e-mail lá está o nome da compradora: Lúcia.

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