Quando chove.

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Sempre que o tempo muda e começam as primeiras gotas de chuva alguém aponta um guarda-chuva e diz: pegue se proteja, não vá pegar um resfriado! – Não tem um guarda-chuva?! Então leve o meu e depois não se esquece de trazer de volta. – Ei mocinha calce suas botas, não me vá encher os pés de lama! Se a chuva é muito forte e o guarda-chuva resolve arrebentar os amarradinhos há sempre alguém que diz: fique, espere a chuva passar, eu aviso a sua mãe. Mas… logo hoje que esqueci as velhas botas de andar na lama, meu frondoso guarda-chuva negro (como o que vovô usava), alguém se esqueceu de gritar: – Ei garota volte aqui e pegue já seu guarda-chuva! – Ei garota volte aqui! Justamente hoje esqueceram de me dizer que o céu estava negro e haveria um grande temporal. Não me disseram para não sair de casa ou me pediram para ficar. E quando dei por mim… estava tão primaveril para dançar na chuva que manchei meu vestido branco com os salpicos desavisados de lama, enquanto um vento esnobe roubava as flores que enfeitavam meus cabelos. Eu não estava pronta para dançar! E desde já aviso que nem o conselho mais tolo me disse para dançar em meio ao temporal; principalmente sem minhas galochas, a frondosa capa amarela e meu imenso guarda-chuva. Em meio aos pingos tudo o que consigo pensar é que não quero sentar no asfalto úmido e encolher os joelhos, coloca-los grudados ao corpo e me recusar a levantar! Ou talvez eu queira. Mas, os pingos são fortes, o céu está negro e minhas costas doem… E se eu correr? Correr tão rápido que os pingos não poderão me tocar?! Mas eu abro meus olhos, estou completamente encharcada, minhas roupas pesam, minhas sandálias estão descoladas, meus olhos fixos em nuvens expensas que choram grossas lágrimas. Quero um guarda-chuva bem colorido e forte, capaz de suportar os ventos que se arremessam contra meu rosto. Quero dançar… um sorriso entregue a gotas calmas, cansadas… quero a minha chuva cotidiana, mansa, avisada, atrapalhando meu banho de sol, me fazendo reclamar de manhosa, embalando o meu sono de “ai como estou exausta hoje”. Abro os olhos, ainda cai o temporal…

 

 

Texto especial da Larissa Araújo para o blog.

Despedida de uma professora que se aposenta.

Emprestando o blog:

“A final quem somos nós?

Homo sapiens, Sapiens! Temos os cinco sentidos desenvolvidos: pensamos, ouvimos, falamos, sentimos cheiro e tato. E os sentimentos? Esses seguem leituras diversificadas: as classes sociais determinam sua intensidade, os modelos normatizados e enraizados culturalmente.

O ser humano saiu das cavernas, descobriu o fogo, passou a viver em sociedade, inventou a escrita, se industrializou, fabricou o antibiótico e a vacina, foi à lua, fez bombas atômicas, carros, trem bala, aviões supersônicos. Encurtou distância nesse mundo globalizado, economicamente, socialmente e culturalmente.

Dentro desse meio diversificado, concentrado, está o professor, está você Arlete. Onde o contexto político, econômico e social brasileiro fez a nossa entrega ser dolorosa, árdua como diz Hilda Hilst: ”na entrega existe dor.”

Foi grande parte de sua vida, semeada e colhida na relação do contexto escolar, receptor direto do modelo socioeconômico vigente: um dia viu brotar o plantio, no outro a semente pecou.

Agora começas uma nova fase da tua jornada de vida, merecias flores, ovação, salva de palmas, carreata até então, afinal és professora, que buscou cutucar, fazer brotar questionamentos, idéias próprias de pessoas de um bairro, um cidade, formadora de uma nação. Conhecimento é poder.

A quantidade e a qualidade de idéias colocadas num contexto podem ser aceitas por uma sociedade, ou por ela negadas, quando entram em choque com conceitos ou normas culturalmente admitidos. Ainda bem. É o questionar, o pensar e agir diferente, ler as páginas da vida de maneira diversificadas que nos faz acreditar na sua, na nossa profissão.

Empresto-me do título do livro do professor Doutor Egmar Felício Chaveiro: “A vida é um engenho de passagens”; e do grande regionalista João Cabral de Mello Neto – Morte e Vida Severina. Faça dessa tua fase de vida a estrofe desse poema:

“ – Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria,

– Belo como a coisa nova na patreleira então vazia,

– Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia,

– Ou como o caderno novo quando a gente o principia.”

Já vou-me concluir, com a impertinente indagação: quem somos afinal? Responder uma pergunta tão subjetiva será muita pretensão;

Aproveitando minha origem da caatinga,

Da cor basé da poeira do agreste do sertão

É verdade, vem de dentro,

De uma professara, filha de um migrante, arrancado do torrão,

Quando você deixar essa sala e cruzar esse portão,

Tenha uma certeza na alma,

Cumpriu de bom tamanho essa missão,

E deixará aqui vários colegas que não te esquecerão. ”

Autora: Maria Ires Bezerra